Empresas não sabem desenvolver soft skills nos jovens
Levantamento revela que maioria dos RHs transfere formação comportamental para gestores sem suporte estruturado
O desafio de integrar novos talentos ao mercado de trabalho brasileiro atingiu um ponto crítico no início de 2026. Uma pesquisa inédita realizada pela Ideafix e encomendada pela Fundação Wadhwani aponta um cenário alarmante na cidade de São Paulo. Mais da metade das empresas entrevistadas admitiu que não possui metodologias eficazes para desenvolver as competências comportamentais dos seus jovens colaboradores em início de carreira.
Essa carência de estratégias estruturadas reflete um gargalo que afeta diretamente a produtividade e a retenção de talentos nas companhias. Em vez de criar trilhas de aprendizagem específicas, muitos departamentos de Recursos Humanos acabam delegando essa responsabilidade inteiramente aos gestores diretos. Sem ferramentas ou treinamento adequado, esses líderes de área muitas vezes não conseguem suprir a demanda por mentorias comportamentais.
O impacto dessa falta de preparo é sentido no dia a dia por meio da alta rotatividade e de vagas que permanecem abertas por longos períodos. Para as empresas, o custo de não saber desenvolver essas habilidades é invisível, mas pesado, traduzindo-se em equipes desmotivadas e processos de integração falhos. O mercado agora exige que o RH assuma um papel mais ativo na educação corporativa básica.
Por que as soft skills são tão decisivas hoje?
Em cargos de entrada, como aprendizes e assistentes, o currículo técnico costuma ser muito similar entre os candidatos. Por isso, competências como comunicação, comprometimento, inteligência emocional e proatividade tornaram-se os verdadeiros diferenciais para a permanência no emprego. No entanto, 60% das organizações ouvidas relataram que é extremamente difícil encontrar jovens que já cheguem com essas habilidades minimamente desenvolvidas.
Essa dificuldade de recrutamento gera um clima de desconfiança nos métodos tradicionais de seleção. A pesquisa revelou que 53% das empresas acreditam que "nada" poderia acelerar o tempo de fechamento das suas vagas atuais. Esse dado é um forte indicativo de que o mercado está saturado de processos que buscam o "candidato pronto", em vez de focar no potencial de desenvolvimento interno dos jovens.
Para Thiago Françoso, vice-presidente da iniciativa de empregabilidade da Fundação Wadhwani no Brasil, o problema é sistêmico e envolve as duas pontas da corda. Ele acredita que o mercado precisa passar por uma autocrítica severa sobre como recebe e acolhe a nova geração. A responsabilidade da empregabilidade não deve ser jogada apenas nos ombros dos jovens candidatos, mas compartilhada com as corporações. “O que os dados mostram é que o desafio da empregabilidade não está só do lado do jovem. Está também na capacidade das empresas de prepararem e manterem esses profissionais no ambiente de trabalho”, analisa.
Como o RH pode estruturar esse desenvolvimento?
A solução para esse impasse passa pela criação de ecossistemas de aprendizagem que conectem a formação acadêmica à realidade do chão de fábrica ou do escritório. Iniciativas como o Ecossistema de Empregabilidade da Fundação Wadhwani surgem para preencher esse vácuo. O modelo combina formação gratuita em competências comportamentais com plataformas de emprego que filtram candidatos pela aderência cultural e comportamental.
Ao adotar ferramentas que já entregam jovens com uma base de soft skills treinada, as empresas conseguem reduzir drasticamente o tempo de adaptação. Isso permite que o RH e os gestores foquem apenas nas habilidades técnicas específicas do negócio. É uma forma inteligente de terceirizar a formação comportamental básica para especialistas, garantindo que o colaborador chegue mais "maduro" para os desafios corporativos.
A Fundação Wadhwani já capacitou mais de 150 mil jovens no Brasil com esse foco prático e acessível. O objetivo é atuar como uma ponte estratégica que reduz o atrito entre as expectativas do empregador e a realidade do ingressante. Para Françoso, preparar o mercado para receber esses jovens é tão importante quanto treinar os próprios talentos para as entrevistas de emprego. “Nosso papel é preparar os jovens para o mercado, mas também apoiar o mercado a se preparar para receber esses jovens”, completa o executivo.








